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terça-feira, março 17, 2009

Mulheres.. outros tempos

MULHERES, MULHERES...

Nelson Vitiello *

Encontrei-me outro dia com o amigo Bastos, que veio a São Paulo cuidar de uns negócios. No esperável chope que resultou desse encontro ocorreu o inevitável papo masculino sobre mulheres. Chorei em seu ombro o fora que levei da Lili e ele contou-me de sua maravilhosa vida com Vitorinha. Depois de cumprido esse ritual, começamos a falar (bem, é claro) das mulheres em geral e da difícil situação atualmente enfrentada por elas. O que reproduzo a seguir é, mais ou menos fielmente, um resumo das doutas e etílicas considerações que tecemos, entre goles de chope.

De início, salta aos olhos que as grandes inimigas das mulheres são elas mesmas. Apesar de não se cansarem de nos acusar de machismo (o que é uma óbvia verdade), não conseguem perceber que grandes machistas, são atualmente ... as próprias mulheres. Claro! Quem, senão a mãe, ensina aos filhos que macho que é macho não chora? Quem diz às filhas que "menina boazinha" não faz isso ou aquilo? É forçoso reconhecer que as mulheres são ao menos cúmplices, senão as grande transmissoras, daquilo que se convencionou chamar de "papel sexual" e, portanto, do machismo. Além disso, não é experiência incomum que nós, ginecologistas, ouçamos de mulheres que nos procuram a afirmativa de que tratavam-se com uma médica, mas resolveram nos procurar (nós, médicos homens) para uma cirurgia, pois não confiam em mulheres!

O conceito comumente difundido de "mulher moderna" é bem uma prova da enrascada em que nossas contemporâneas se meteram.

A tal mulher moderna, no conceito usual, é a mulher que tem uma carreira profissional, zela pelos filhos, administra a casa, está atualizada quanto aos fatos da vida, entende de economia e de política, tem conhecimentos, tempo e disposição para auxiliar os filhos em seus deveres escolares, veste-se bem, está sempre bem cuidada e é uma perfeita anfitriã, além de ter uma conversa culta e interessante. Devem ser também, para os maridos, boas esposas e amantes interessantes. E é óbvio que, se o Júnior tiver febre as 7:00h da manhã, quem vai ficar em casa cuidando dele é sempre a mulher, nunca o marido, embora os homens também sejam razoavelmente capacitados p'ra contar as 20 gotinhas de analgésico necessárias.

Escuta-se eventualmente algumas amigas contarem, com evidente orgulho, que o marido ás vezes ajuda na lavagem de pratos, ou até (maravilha das maravilhas!) ajuda a trocar as fraldas do bebê! Como se eles não sujassem pratos ou como se o filho não fosse também deles!

Em resumo, a divisão de tarefas ainda está longe de ser a ideal. Além disso, a imagem passada como a esperável, até (e principalmente) pelas revistas femininas, é a de uma "super-mulher". Fica evidente que ninguém é tão perfeito assim; no entanto, a constatação dessa "falha" deixa uma certa frustração, mesmo para as mulheres mais bem resolvidas.

Claro que, dizendo isso, não estou defendendo a ancestral submissão, nem a volta das mulheres ao "presídio" do exclusivo e embrutecedor trabalho doméstico, alheando-se do mundo, envelhecendo precocemente e se transformando em pessoas amargas e de pouco interessante convívio.

Claro também que não inocento os homens de culpa, pois isso seria uma grande injustiça. O que estou querendo dizer é que, apesar de tudo, a situação das mulheres ainda não é tão boa e que o tempo mostrou que não bastava às mulheres, para alcançar a felicidade, sair de casa e arranjar um emprego. O que fica patente é que as mulheres não conseguiram se libertar dos afazeres domésticos e, de quebra, arrumaram mais trabalho fora do lar. E trabalho frustrante, pois mal pago e pouco reconhecido, por vezes até mesmo pelas próprias mulheres.

De fato, a situação em que a maioria das mulheres de hoje se encontra não é nada invejável. Criaram-se novas expectativas e novas necessidades que não estão sendo adequadamente cumpridas. Mesmo sem querer forçar os ponteiros do tempo para trás, é forçoso reconhecer que a "evolução" que as mulheres conseguiram, com tanta luta, aparentemente não está trazendo mais felicidade, ao menos para a maioria delas. Em tom de saudosismo jocoso, contei ao Bastos como era organizada minha família, até 2 gerações atrás. O "chefe" do clã familiar, nominalmente, era o velho Anunciato, meu avô. No entanto, que mandava mesmo, quem punha e dispunha, era a "nona" Carolina. Nada, absolutamente nada de importante era feito sem seu conhecimento e sua aprovação. Formalmente, para uso externo, ela apenas apresentava aosfilhos e netos a vontade do marido; na realidade todos sabíamos que quem mandava mesmo era ela. Recordo-me inclusive de que uma vez em ela chamou meu pai e disse: "Teu irmão está com dificuldades e por isso você vai pagar a escola dos filhos dele este ano, está bem?" E meu velho, habitualmente tão teimoso e discutidor, nem piscou: "Claro, Nona".

Evidentemente, nos dias de hoje, seria descabido querer fazer renascer figuras de matriarcas assim, que se contentavam em mandar sem aparecer. A época é outra, as pessoas são outras e as necessidades individuais e sociais são completamente diferentes. No entanto, respeitadas as devidas proporções, acho que nona Carolina, apesar de tudo, teve uma vida mais feliz do que a de muitas executivas que conheço.

Pobres mulheres, concluímos. E além de tudo isso, elas ainda tem que nos aguentar!

* Nelson Vitiello, médico, ginecologista, ex - presidente da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana – SBRASH (http:// www.sbrash.org.br). E- mail: sbrash@sbrash.org.br .

Palestrante convidado em congressos médicos e palestras de inclusão social / gênero

Pessoa especial – a gente sempre sabia que logo iria ouvir uma risada, um estímulo ou receber de certa forma este calor humano que faz parte de sua natureza. Obrigada, Nelson.

Permitido pelo autor, republicado In Memorian


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Citação

Jung: ...A vida nada mais é do que um hiato. O que fazemos dela, o sentido que damos para ela enquanto vivemos importa mais do que qualquer acúmulo de glória e riquezas materiais.